Vai e Vem, de João César Monteiro


Madragoa Filmes, 2003
escrito por João César Monteiro
com João César Monteiro, Manuela de Freitas, Rita Pereira Marques, Joaquina Chicau, Lígia Soares, José Moura Ramos, Rita Durão, Maria do Carmo Rôlo, Miguel Borges, Rita Loureiro e Ana Brandão.





(…)

- Morreu na cruz.

- Pois morreu. E com grande alarido. Só ao fim de três dias é que conseguiram descalçar a bota. E logo arranjaram modo de o ressuscitar para que a farsa acabasse em bem. Bem para ele, e ainda melhor para nós. Faltavam umas rezas e umas benzeduras para edulcorar a outra vida, a do além, só dele, é claro, só dele bem conhecida, por lá ter estado na companhia do pai. Nessa sim, é que ira ser bom. Um mar de rosas, um regabofe, e porque não um encher até mais não, ademais per saecula saeculorum.

- E qual é a solução?

- Não há. O suicídio é uma solução? Se é, e há quem defenda que é, não me interessa. Só o problema é interessante, nunca a solução. E o ser humano, ou o que dele resta, tem que ser capaz de viver com a insolubilidade da própria vida.

*

a página de João César Monteiro

Da rosa fixa, de Maria Velho da Costa


Moraes, 1978
[3000 ex, esgotado]


91.

Perdoem-me a dificuldade de escrita, descrita. Se eu vos desse um gesto tão simples quanto o deglutir de uma lâmina, a laceração interna - falemos claro - a morte por impaciência - como seria mais fácil converter-vos à decifração, ao acto exausto, de ler. Porém, jamais desejei amar-vos tronando sobre a vossa culpa, na rigorosa ausência. Em termos de processos naturais como simplificar-vos a trama e ocultação da orquídea em grossíssimo mato, ou a grande arraia alada sob mares, senão pedindo-vos mansamente a viração do rosto até à tão genérica aceitação da rosa, silvestre ou tão cruzada. Eu preferi a testa reclinada sobre o húmus à sabedoria, a invocação do navio em trânsito à cumplicidade dos deuses, leitores únicos. Assevero-vos porém que nada disto é mais humano que a comovente perspicácia arquitectónica da toupeira, vidente cega assim acomodada pelos tempos e acasos carnais, ambiências, mucos.

*

129.

Bater-se contra o hábito e os seus desvios. Nem outra ortodoxia resta que a que clama pelo dito que poude sangrar inaudível e debater-se o corpo estranhado onde os companheiros fedem e chiam, enfeitiçados da razão de Circe, porqueira hábil do lugar sem termo e sem tempo, perdido o nome e o mapa das origens. Arte são os sentidos que viajam mais alto ou até um regramento de vida exemplar. Se desnuda também em tua honra e erro, para que mais seja, a dulcíssima divagação do que não poude ser de outro modo, o cântico do amor áspero e fechado por hesitância deles, amado redil estreito de onde as cabras trânsfugas, quais rosas escuras, alteram humilimamente por excreta a muito lenta maturação dos vinhos sápidos, a mesa regional.


nova asmática portuguesa, de Nuno Moura


capa e desenho de Maria Alcobre
paginação e arte-final de Inês Mateus
Mariposa Azual, 1998
[500ex, esgotado]


primeiro

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

Somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ebêéle
fala-se de valores na casa dos campálimôs.
portugal é um país de poetas ricos.
a poesia dá dinheiro a portugal.


*

atlético

não houve ruído vindo do terceiro anel
mas entrou ginástico
abençoando o chão de uvas no inverno
agora cor de canela sintética no verão.

no banco o guiné retirado abraçava o agasalho
do bléque-saramago que no campo
já tinha um canto a seu favor.

o guiné retirado
tinha uma bomba propulsora de gás líquido
nos angúlos dos braços
tinha ossos de assoar o homem
tinha um possível fernando pulitzer no bolso
totalmente caramelizado.

tinha um amigo em campo
em lobo-futre com um canto a seu favor
e com um desgosto de morte
no romance corroído.

como se perdem os artures os bons melos
das nossas eis-colónias
como se perdem.

*

ir para Mia Soave

o site da Mariposa Azual

Die Blechtrommel (O Tambor de Lata), de Volker Schlöndorff


França, Polónia, Jugoslávia, Alemanha, 1979
baseado no livro de Günter Grass
escrito por Jean-Claude Carrière, Volker Schlöndorff, Franz Seitz e Günter Grass (diálogos adicionais)
com David Bennent, Mario Adorf and Angela Winkler




The Tin Drum na Criterion Collection

stills em filmportal.de



Olhar o Nada, Ver a Deus, de Rui Caeiro


desenho e vinhetas de Bárbara Assis Pacheco
composto e paginado por Olímpio Ferreira
Averno, 2003
[250 ex, esgotado]

*

Sobre ti, como é da praxe, poucas verdades. Poucas mas firmes.
Agora mesmo duas me ocorrem:
Uma, não és; outra, não gosto de ti.
(Se há aqui paradoxo ele em nada me confrange, com paradoxos posso eu bem)
Sobre a primeira verdade pouco há a dizer. Verdade grande como um punho. Não és, pronto acabou-se.
Sobre a segunda, longa história. Não gosto de ti, nem do que outros fizeram de ti ou mesmo viram em ti, nem do que outros, ou ainda os mesmos, puseram em lugar de ti, do santo nome do teu não-ser.
De ti certamente que não, mas da esperança. Da esperança esfarrapada e quebradiça que tantos em ti depositaram. Em ti - no teu ser nulo. Esse investimento, esse desperdício. Que não é mensurável e que não cabe em palavras.
Mas como se pode gostar de uma esperança? Mais simples querer ao próprio desespero.

*

Na terra onde nasci - Vila Viçosa, no Alto Alentejo - igrejas, padres, seminaristas, procissões, beatas, eram um não acabar. Constituíam, paradoxalmente, um sinal seguro de que Deus não existia nem fazia falta nenhuma. Toda essa parafernália, reportando-se embora a Deus, substituía-se a ele, dispensando-o. As ruas cheiravam ao fumo das braseiras e a carne de porco frita. A neve não dava sinal de presença nem no pino do Inverno. Deus também não. A minha primeira namorada (era meio espanhola) achava tudo muito natural, muito místico. Casou e teve muitos meninos.

*

o blog da Averno

o Rui Caeiro na Hospedaria Camões

o Rui Caeiro na Poesia Incompleta aqui e aqui e aqui

Rebonds, de Iannis Xenakis, por Pedro Carneiro


Há uns bons anos, na Culturgest, durante os extintos Encontros Gulbenkian de Música Contemporânea, Pedro Carneiro interpretou três obras para percussão de Xenakis, num concerto que me está marcado de tal forma que diria que o fui ver ontem.
Não sendo a mesma coisa, neste CD/DVD, da ZigZag Territoires, Pedro Carneiro interpreta a solo Rebonds A, Rebonds B e Psappha, e junta-se a Mathew Rich e Stephan John Gibson em Okho, para 3 Djembés. Na face com DVD, a interpretação de Rebonds B e um pequeno documentário.







a página Les Amis de Xenakis

a página de Pedro Carneiro


O Bestiário Lusitano por Alberto Pimenta





2
A Alocução da Raposa

A todos vós, sem excepção, a minha saudação cordial; a todos os galos e galinhas que vieram aqui ouvir-me, alguns de bem longe, desde há várias horas sem mais que uma minhoca no papo, outros tendo sido obrigados a deixar a criação ao cuidado de vizinhos ou parentes, a todos e todas a minha saudação cordial.
Claro que para nós, raposas, é evidente que não há só galinhas conscientes, galinhas responsáveis, galinhas que sabem o que querem, mas também galinhas hesitantes, galinhas mal-esclarecidas, galinhas ignorantes e irresponsáveis. E com isto eis-me já dentro do meu assunto, pois porque é que há-de haver galinhas e galos cuja vida está tão bem regulada e protegida que não precisam de preocupar-se nem com a criação, enquanto há ainda outros que continuam a ter de arcar eles mesmos com a tremenda responsabilidade do seu sustento e do sustento dos seus? Refiro-me evidentemente por um lado àqueles galos e galinhas que têm a verdadeira felicidade de habitar a sociedade-modelo que criámos no nosso aviário, e refiro-me por outro lado àqueles penosos que não estão ainda nesse caso.
Para mim, como aliás para todas as raposas verdadeiramente responsáveis, há uma verdade inalienável, e por ela estou, estamos todas dispostas a sacrificar o que temos de mais caro: a nossa pele. Diz essa intangível verdade que todos as galinhas e galos nascem iguais e livres, independentemente da sua raça, ascendência, religião, cor das penas e ainda independentemente do seu sexo e das suas convicções.

ovação tímida

Não me admira a vossa convicta aprovação, assim como me não admira a vossa justa firmeza em defender estes princípios, e a vossa verdadeira coesão e unidade, bem simbolizadas no facto de estardes aqui em tão grande número e tão alinhados que de cada um de vós só vejo metade, unindo-a os meus olhos muito naturalmente à metade do vizinho detrás. De resto, um colega meu dizia recentemente: as galinhas estão descontentes, querem actos e não palavras.

cacarejar de assentimento


Pois bem, é por isso que aqui estou, para vos dizer que se cometeram alguns erros no passado, mas que é determinação nossa levar-vos hoje a todos a fazer uso verdadeiramente condigno da vossa liberdade, assegurando-vos todas as regalias que o modelo de sociedade praticado no nosso aviário conquistou para vós, e retribuindo vós a segurança, a tranquilidade, a confiança que ali se gozam com a vossa honesta e regular produção.

Há aí muito quem se finja de cordeiro e não passe de lobo mal disfarçado, não faltando também exemplos do contrário, mas eu sou como sempre fui, e nunca deixarei de ser, a raposa, a vossa raposa, nada mais que a vossa raposa

ovação hesitante

e por isso eu pergunto: quantas vezes, nesses terrenos onde ainda habitais, sem um mínimo de estatuto e de dignidade, quantas vezes dizia, não tem sucedido que vós, ou um dos vossos, voa a um muro, ou simplesmente mete a cabeça por uma fresta, e sente verdadeiras cólicas, porque assiste a confrangedores episódios de rapina, levados a cabo sobre os vossos, por gatos ou idênticos seres maléficos, espíritos do mal, duendes transviados, sereias encantadoras? Quantas vezes isso não tem sucedido e não continua a suceder? Sim, quantas vezes? Não preciso de vos dizer que no nosso aviário estais livres desse perigo, que estais verdadeiramente protegidos, que estais em paz, que tendes finalmente o bem-estar que tanto almejais sem ainda o terdes atingido, que tendes também sossego, que estais defendidos do que se passa no exterior, que nada vindo de fora vos poderá afectar ou poderá afectar a vossa disposição e todo o ritmo da vossa vida e da vossa produção. Mas quereis mais exemplos? Quantas vezes vos não tem sucedido, a vós mesmos ou a um dos vossos, quedardes desnorteados, perderdes subitamente o tino ao rumo que leváveis, por terdes ido longe de mais em terreno desconhecido e já não saberdes que lugar é aquele, ficando então a olhar para trás, saudosos e também cheios de medo, furricando-vos pelas pernas abaixo?

cacarejos furtivos

Sim,